
Quando contigo me passeio
Darkside


Contraste
sem definição de relevo
sem atributo exclusivo
sem permanente difusão
qualidade de angústia e tribulação
a matéria negra Isis antiga
deusa celeste celebrada pela eternidade
teu filho perdido espaçado pelos rios
pelos campos
pregado algures na fúria dos humanos
e tu serena
serena quanto pode ser quem o é
e apesar da estrutura do tributo divino
da efusão dos corpos pelos corpos
para o abraço maternal esquálido
numa acídia celeste
esgar de encolhimento
apesar da dor da perda
vais errando pelas eras
junto das evocações das multidões
mulher
tens de amar os teus homens
tens de os amar para que se salvem
não basta que os dês à luz
não basta que dos teus seios brote leite
não é suficiente que os tragas ao colo e os alimentes
não é muito que te deixes semear
e quem em pranto sofras as sevícias do humano
não chega o prenúncio do abandono e da escravidão
a matéria negra e esquálida
o filho entregue ao caos e ás fúrias
a sublimação do ser na revolta
a guerra infinita com o comando
mistério tens de ser ainda
porque sem mistério
não existe
tuas mãos ao peito
a dor contida
o olhar perdido
e a fecundidade de Deus
continente de luz
deusa
mistério
que a carne te seja entregue
e nela te desmaies
una
por todos nós
bendita entre os demónios
mistério de todos nós

Vestido com uma couraça de profundo orgulho,
cotado com a verdade trivial e a certeza da fé,
marchando com uma flâmula de ressuscitado,
cantando louvores ao deus das cortes celestes,
estás, orgulhosamente filisteu, na tua regra e vida.
Uma só gota de nada serviu para te desflorar
porque eras inocente e romântico sem pingo de assepsia.
Foi então que pela palavra te domaram as bestas,
pela imagem te usaram todos os monstros e
em nome da mais cândida bondade
uma virgem santa te prostituiu no bordel mais próximo
dedicado ao filho divino ou ao mestre do futuro
entronado em ministro
fluentes todos no mesmo múnus sacerdotal.
Serviste o demónio sem nunca protestar porque afinal
o dever, sempre ele, assim te obriga,
a isso te impele a consciência e a pequena
mas saborosa profissão... tua... só tua.
Agora, em nome da tua desmesurada asperidade
pretendes uma integridade como uma pedra
como um cubo se insinua numa recta ou
um circulo que pretende transformar a carne em torpor.
Foi contra o ponto ínfimo de um átomo de ebriedade
que a tua carapaça se desintegrou...
quando ela passou e te deixou no ar, a ponta do olhar
aquele brilho no segundo exacto em que a pupila
se encontrou com a tua e a ligação
do quente se deu lá no fundo e tudo se desfez
Não era uma mulher, parecia que era...
antes, era a morte... vestida de loucura
tapada pela luz, qual valacouto que se te oferecia
e tu não apreendeste senão a máscara.
És assim apenas um pouco de ti entre a bruma da vertigem a
saliva do outro que te fala e o desdém da funcionalidade
publica, ou púbica tanto faz.
Na eternidade do minuto a que te reduziu a tempestade de
ódio ou na vestuta arrogância da universal puta a que serves
vestida de moeda ao fim do mês em troca de tempo de vida
a tua preciosa integralidade integra de ti, como espelho a
que te agarravas esfumou-se no ar...
Desintegrou-se como vapor de água contra a luz do sol.
Nada mais que uma pequena folha de pagamento te serve
para pairar nesse mar de angústia.
O ogre interno reclama e tu não desmentes
um cúmplice medo de ser algo mais que um número
tens horror á fuga da estatística e apelas sempre para
a hierarquia dos anjos dos mestres ou dos senhores para que
te salvem de ti próprio... que deus te valha.
Eu, que habito no magma infernal dos teus piores receios
e que cuido de ter inscrita a tua figura no livro
das almas ainda por perder
vou sorrindo e cavando a teu lado a linda cova
um dia votarás em mim para patrono da negra arte
e serei dono do destino
cuspir-te em cima e agradecerás
porque consegui finalmente que te desintegrasses mesmo
não no húmus que sempre foste, mas
na grande causa da divindade turca
como encarnação da classe hostil a qualquer felicidade
os simples... como tu
à espera de
desintegração,
esse acto que te posso dar de borla

Marchas para a tua atribulação
queres fugir de ti
porém a sombra não te abandona.
Mergulhas no espaço das tuas atribulações
defendes as massas entre os lobos
inventas os cordeiros pascais
fazes ablações ao infinito
e não descansas nunca
não dormes apenas sonhas.
Na investida pascal,
de bandeira firme ,erguida,
avanças com os irmãos
para o massacre das almas.
Milhões e milhões servem-te em pratos de metal,
as colecções de cabeças,
com que ornas o teu palácio.
Celebras desse modo o culto à revolução,
é o movimento dos astros,
a sistematização do lento,
a aplicação do estilhaço,
a elevação da cruz a sinal de fogo.
A morte é a revolução
perdida no espaço da mão
descarnada do corpo, entregue ao carrasco
e o carrasco de ti mesmo és tu e só tu.

O início da dor
A noite espalha por ti a sua cor,
nela, exercitas a loucura como quem se passeia
não terás nunca paz, sabes bem,
mas que interessa a paz se a morte vem.
Sim, ensaias por entre o troar das vozes anónimas,
discursos solenes a um deus bestial.
Na verdade, deixas que o mal te encha,
que te comande, e não queres a vida.
Teu futuro é a necessidade de uma sarça,
de uma velocidade estonteante e pura,
de uma carente e bestial sensação,
como se toda a droga se centrasse em ti,
e o veneno que destilas não fosse doce, somente água.
És a força cruel da montanha de ódio que te urde,
e Deus, como sabes, aniquilou-se por ti,
para que tivesses a certeza de que a vertigem é.
És o Pã vestido de gravata,
uma inocente reapreciação do cômputo fiscal,
a contratação do viaduto entre a vida e a morte,
a premissa da destruição ignóbil da mulher linda,
a laranja que é a terra na linguagem dos poetas,
mas tudo isso para a morte, não para a vida.
Não sabes que a vida não é,
não se pode cantar louvores quentes,
só o frio nos liberta,
só a morte nos dá sentido de ilusão.
Sabes mas a tua escolha é o sorriso...
A vida é para ti a crueza da pedra entre a mancha de
sangue.

Creio num só Deus
Criador não do céu ou da terra,
de todas as coisas vivas,
visíveis e invisíveis,
mas, num DEUS
criador
da dor
da morte
e
da descrença
crivado de angústia
pregado por homens como ele
consubstancial
ao pai touro APÍS
e à mãe HERA com olhos de vaca.
Criado não criador
das necessidades
humanas
vernáculas
baixas
vis
fazendo
negócios
por entre velas
e sacrifícios
a santos
disfarçados
de deuses
do lar
entregues
pelos senhores
do mundo
aos tristes
escravos
para secreta adoração
das suas vidas
ilustres
vendidas
nas capas das melhores revistas.
Creio
na santa madre igreja
universal
dos homens
benzida
com ouro
e diamante
toda revestida
dos símbolos
da morte
confundidos com os da vida,
assim entregue para a salvação
de todos os que
perdidos
no seu mar interior
de dúvida
de descrença
de desejo
de paixões
as centrem
ali dentro
da cruz
como se fosse
um sol
a troco da desculpa
por ter uma culpa
que foi inventada
numa tarde
em que a revolta
escrava se fez mais dura
e onde foi necessário
refrear não só
o ódio do escravo como
o ódio do senhor
ao escravo
numa moral
toda rodeada
de mulheres virgens
e sensuais
que se entregam a
fornicações
divinas
mas só com o divino.
Creio
portanto em tudo
para não
acreditar
rigorosamente
senão
no
espírito
que não é santo
mas
apenas
e
só
carne como carne
de
mulher
que nos dá gozo
antes do estertor
que antecipa
o orgasmo
da morte
e virá
para ressuscitar
não os vivos e os mortos
mas
apenas e só
o eterno fogo
do início
Assim seja.

Evitando uma relação distinta com o espaço
Criando a ubiquidade
Talvez resolutamente absorto ou perdido no devaneio
Talvez esquecido
Quem sabe perdido por entre as tramas de uma vida qualquer
Objecto de ti mesmo sem sujeito nem pergunta
Estando simplesmente ao sol
Calmo
Projectando mais que uma sombra mais
Esperando que a porta se abra
A porta que se abra para que se entre e
Sentado
Se possa perguntar o que vem
O que vem depois de ter vindo o que se foi
E o que se é
O que vem
Depois de se estar sem se estar
Após a manhã fria do descontentamento
Dos lugares vazios cheios de caras e corpos
Das alianças sem qualquer sentido
O que vem
Para lá do que pode vir que se conhece
Por ter acontecido na nossa pele
Abre-se a porta
A cadeira espera
Espera que se entenda a sua singularidade
Está ali
Por não estar mais nada
Do que a sua presença
Esquadril
E a fome de perguntar acontece
A sede de ver permanece e a porta interior
Que se abre à espera do que vem
Não se pode fechar
Não se pode fechar
A cadeira espera
E o interior
Fundo
Não se conhece

Quem se passeia nas tardes da preguiça, distraído enquanto o popular trabalha o suor do nosso quotidiano?
Quem finge não ver e não se envolve a não ser com os sonhos de ter e ter e ter sem nunca se satisfazer e vai usufruindo, fingindo que está sem estar fingindo que faz sem realmente fazer absolutamente nada?
Quem se afasta de tudo até do fruto do seu sangue e exige, do estado, que lhe finja o sucesso fácil do trabalho por fazer?
Quem se entrega à moda, ao jantar happy e à selva do domingo no corredor marmoreado do centro, tão comercial, como frio e vazio, apenas cheio da imago que vende e revende a mão cheia da felicidade padrão?
Quem nos aponta o dedo por sermos só sem mais, nós, e não quer que se denuncie que nas margens do pântano se está a viver à espera da pequena esmola tão celestial e confortante?
Quem manda para as costas no dia diário da perca, sem ver nada a não ser o esférico trôpego a saltar na relva em busca o orgástico golo no fundo do ânus adversário?
Quem se entrega à fúria do círio na igreja comum e orando vai cuspindo na cara alheia o seu orgulho distraído de bondade superior?
Quem se esconde no trabalho, no sexo ou na droga, qualquer, para se matar de tanto ser para exactamente não ser o que pode e devia ser?
Quem se afunda na leitura, na letra, na imagem, na arte, no ódio ou na visão, para não remendar a vida e não falar de amor apenas fingir uma dor de narciso perdido na infância da sua preguiça?
Quem pactua com o voraz devorador em troco da impunidade?
Quem se demite de tudo até de pensar?
E quem, tendo consciência da urgência da acção, da luta, da necessidade de se dar, sem medo, para que os monstros não destruam nem minem os que se demitiram de tudo, não o fazem invocando a sua necessidade de ser equidistante e olímpico?
E quem, tendo conhecimento da miséria provocada e da ignomínia desejada, da oligarquia de bronze e da premissa de exploração não se quer entregar e antes denuncia quem luta e acusa quem se dá ali na ponta para a morte sabida?
Quem denuncia de frente o acordo de fundo, conivente entre senhor e escravo ambos no banquete do que se esforça por fazer vingar a vida?
Quem são os traidores?
Quem são os que lutam, hoje de frente, pela liberdade inominada, fora do formato fácil do poderoso cão dos infernos que nos governa?
Quem são os lutadores?
Quem devemos matar?
Quem devemos deixar apodrecer?
Quem devemos trucidar na luta?
Quem devemos apoiar para que se instale o caos?
Quem deseja de frente a morte para que haja vida?
Que venha já o fim para que se possa começar a limpar...
Só a crueldade nos pode libertar do medo ...
Porque o medo é a arma do opressor e quem nos trai não é e ele, é o que sofre e não se revolta...
O que não aprendeu que a luta nos enobrece
O que não entendeu que não há vencedor há partida
Todo o que, quando viu que podia fazer algo, achou que melhor era não fazer
Todo o que julgou que não tinha jeito, que não valia a pena
O que hesitou
O que se escondeu
O que preferiu não ir

Quando mergulhares para o negro fundo
está seguro das tuas dores e convicções
porque ao ressuscitares a vida, vindo da penumbra
podes perder-te em altivas divagações de trevas
estás a mergulhar e uma voz puxa-te cada vez mais longe
nadas, não respiras mas reparas que te crescem guelras
habituas-te a não respirar ar mas a viver no fundo
só, frio, distante, distraído com as cores que inventas, e
perguntas se existe uma lua e um sol lá fora
se algum dia alguém existiu e se ainda tens passado
um grande desejo invade tudo, apaga até as estrelas
e só fica o profundo negro frio vazio da nossa imensa alma
rios de sangue invadem o espaço e impelem-te para a frente
vais à superfície e gelas tudo até a ti para ficares a arder
em fogo negro lento, macio, glorioso, afectuoso,
a morte habita-te e tornas-te num longo arbusto
imóvel, ardente, sereno, distante, ausente e enraizado
na história do tempo que está fora do tempo
em frente ao infinito transversal a qualquer dor
Quando estiveres a morrer, diariamente
lembra a vida sem qualquer enlace ou criação
a dor é uma montanha distante
e o cerro da porta que está por abrir é um mistério
ergues-te então do fundo e
rios de sangue brotam da tua mente e invadem a realidade
o real escapa por entre a imaginação e o terror
vais nadando por entre o sangue e por vezes
bebes um pouco
num hábito que te vai ficando das horas passadas
como arbusto perdido, ardente
em frente ao destino gelado da tua sombra preferida
Por isso
quando mergulhares para o negro fundo
está seguro das tuas dores e convicções
porque ao ressuscitares a vida, vindo da penumbra,
podes perder-te em altivas divagações de trevas...
no desejo de já não te habitar vida

És tão bonita
sempre vestida de tudo o que não existe
apenas cintada com o verniz da espuma do mar
No dia em que o caçador te tomar por entre os seus braços
a porta da partida será apenas entreaberta e
os teus seios serão lindamente esfaqueados
para dar de comer a milhares de famintos
És linda e o teu corpo floresce
apeteces beijar e trincar
fazer contigo amor é o que se torna possível
tenho então que te dormir na cama do ácido
e desflorar-te para que a tua lógica se mature
e dê filhos
mas tu estás longe e viajas no clia do nome
sussurrado
Mas ainda posso mudar a minha mente
esta noite ainda posso fazer isso
basta que não me beijes nem me excites
com palavras gestos ou toques
apenas que me deixes ser como sou
E se a armação da argumentação
não te der razão
não te importes afinal
eu gosto e quero dar-te apenas prazer
é para isso que sirvo
é para isso que a vida me paga
para te dar prazer
que importa a lógica fria do advento
e que Deus
como quer a teologia
esteja sempre presente
sabes do que mais me recordo é do teu sorriso
da tua frescura de olhar que se perde
e ao mesmo tempo não se perde
da forma como te vi enrolada na cama
de barriga para baixo
de pernas para cima
entregue a uma preguiça
não transcendental mas apenas e só
preguiça
Então vem o balanço da lógica
e a argumentação serve de baixo
para dar o tom
falas discorres
e a tua voz embala-me
sonho ter-te e possuir-te
numa enorme cama sem fim
ter filhos teus e morrer a teu lado
tudo num segundo
num minuto
num instante
que é a vida toda
mas afinal
a lógica fria impele de novo e diz não
Lógica e argumentação
o trote a mula o cabrão do cão
eis a verdade que de perna
no advir do novo dia
Porém um dia bela
um dia no mar
das estrelas por viver
farei o que me apetece
e serei feliz
mas apenas e só
petiz
e se um ácido de repente
te oferecer flores
sorri rapaz
não é a droga
não necessitas disso
é só a lógica e a argumentação
abaixo a cueca
liberdade ao corpo masculino
tenho dito
Darkside