sábado, 29 de dezembro de 2007

Quando contigo me passeio


Quando contigo me passeio
Por entre as ruas, casa paredes e janelas
E te dou a mão
Que fica de nós para o mundo?

Como sabes tu que vivo se não te distingo de mim?

Como sabes tu que existes se em mim não existe nada a não ser tu que me dás a mão?

Se se projecta em nós algo maior porque fenece a imagem numa qualquer rua por entre casa paredes e janelas?

O mundo existe mas não existe em nós mais que um mundo que se cria quando passamos por casa, ruas paredes e janelas.

Porque em nós existe um nós maior que nos define
Um nós que não acaba em nós
Apenas em nós começa e em nós
Tem o seu infinito despertar
Mesmo que a janela nos delimite
E a rua nos determine
E as casas por serem como são
Nos limitem o passo e a vontade nos tolha todo o entardecer

Não nos limita a vida
Apenas a mão nos damos e vamos
Os dois num só
Por nós porque
Quando contigo me passeio
Por entre as ruas, casas paredes e janelas
E te dou a mão
Que fica de nós para o mundo senão
A imagem que passa por nós
E nós que por nós passamos
Em nós vamos ficando
Cada vez mais
Sós


Darkside

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Mistério


Contraste

sem definição de relevo

sem atributo exclusivo

sem permanente difusão

qualidade de angústia e tribulação

a matéria negra Isis antiga

deusa celeste celebrada pela eternidade

teu filho perdido espaçado pelos rios

pelos campos

pregado algures na fúria dos humanos

e tu serena

serena quanto pode ser quem o é

e apesar da estrutura do tributo divino

da efusão dos corpos pelos corpos

para o abraço maternal esquálido

numa acídia celeste

esgar de encolhimento

apesar da dor da perda

vais errando pelas eras

junto das evocações das multidões

mulher

tens de amar os teus homens

tens de os amar para que se salvem

não basta que os dês à luz

não basta que dos teus seios brote leite

não é suficiente que os tragas ao colo e os alimentes

não é muito que te deixes semear

e quem em pranto sofras as sevícias do humano

não chega o prenúncio do abandono e da escravidão

a matéria negra e esquálida

o filho entregue ao caos e ás fúrias

a sublimação do ser na revolta

a guerra infinita com o comando

mistério tens de ser ainda

porque sem mistério

não existe

tuas mãos ao peito

a dor contida

o olhar perdido

e a fecundidade de Deus

continente de luz

deusa

mistério

que a carne te seja entregue

e nela te desmaies

una

por todos nós

bendita entre os demónios

mistério de todos nós



Darkside

Desintegração


Vestido com uma couraça de profundo orgulho,

cotado com a verdade trivial e a certeza da fé,

marchando com uma flâmula de ressuscitado,

cantando louvores ao deus das cortes celestes,

estás, orgulhosamente filisteu, na tua regra e vida.

Uma só gota de nada serviu para te desflorar

porque eras inocente e romântico sem pingo de assepsia.

Foi então que pela palavra te domaram as bestas,

pela imagem te usaram todos os monstros e

em nome da mais cândida bondade

uma virgem santa te prostituiu no bordel mais próximo

dedicado ao filho divino ou ao mestre do futuro

entronado em ministro

fluentes todos no mesmo múnus sacerdotal.

Serviste o demónio sem nunca protestar porque afinal

o dever, sempre ele, assim te obriga,

a isso te impele a consciência e a pequena

mas saborosa profissão... tua... só tua.

Agora, em nome da tua desmesurada asperidade

pretendes uma integridade como uma pedra

como um cubo se insinua numa recta ou

um circulo que pretende transformar a carne em torpor.

Foi contra o ponto ínfimo de um átomo de ebriedade

que a tua carapaça se desintegrou...

quando ela passou e te deixou no ar, a ponta do olhar

aquele brilho no segundo exacto em que a pupila

se encontrou com a tua e a ligação

do quente se deu lá no fundo e tudo se desfez

Não era uma mulher, parecia que era...

antes, era a morte... vestida de loucura

tapada pela luz, qual valacouto que se te oferecia

e tu não apreendeste senão a máscara.

És assim apenas um pouco de ti entre a bruma da vertigem a

saliva do outro que te fala e o desdém da funcionalidade

publica, ou púbica tanto faz.

Na eternidade do minuto a que te reduziu a tempestade de

ódio ou na vestuta arrogância da universal puta a que serves

vestida de moeda ao fim do mês em troca de tempo de vida

a tua preciosa integralidade integra de ti, como espelho a

que te agarravas esfumou-se no ar...

Desintegrou-se como vapor de água contra a luz do sol.

Nada mais que uma pequena folha de pagamento te serve

para pairar nesse mar de angústia.

O ogre interno reclama e tu não desmentes

um cúmplice medo de ser algo mais que um número

tens horror á fuga da estatística e apelas sempre para

a hierarquia dos anjos dos mestres ou dos senhores para que

te salvem de ti próprio... que deus te valha.

Eu, que habito no magma infernal dos teus piores receios

e que cuido de ter inscrita a tua figura no livro

das almas ainda por perder

vou sorrindo e cavando a teu lado a linda cova

um dia votarás em mim para patrono da negra arte

e serei dono do destino

cuspir-te em cima e agradecerás

porque consegui finalmente que te desintegrasses mesmo

não no húmus que sempre foste, mas

na grande causa da divindade turca

como encarnação da classe hostil a qualquer felicidade

os simples... como tu

à espera de

desintegração,

esse acto que te posso dar de borla

sem esperar que me agradeças como é devido.


Darkside

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A revolução e a morte


Marchas para a tua atribulação

queres fugir de ti

porém a sombra não te abandona.

Mergulhas no espaço das tuas atribulações

defendes as massas entre os lobos

inventas os cordeiros pascais

fazes ablações ao infinito

e não descansas nunca

não dormes apenas sonhas.

Na investida pascal,

de bandeira firme ,erguida,

avanças com os irmãos

para o massacre das almas.

Milhões e milhões servem-te em pratos de metal,

as colecções de cabeças,

com que ornas o teu palácio.

Celebras desse modo o culto à revolução,

é o movimento dos astros,

a sistematização do lento,

a aplicação do estilhaço,

a elevação da cruz a sinal de fogo.

A morte é a revolução

perdida no espaço da mão

descarnada do corpo, entregue ao carrasco

e o carrasco de ti mesmo és tu e só tu.



Darkside

Manual de crueldade


O início da dor

A noite espalha por ti a sua cor,

nela, exercitas a loucura como quem se passeia

não terás nunca paz, sabes bem,

mas que interessa a paz se a morte vem.

Sim, ensaias por entre o troar das vozes anónimas,

discursos solenes a um deus bestial.

Na verdade, deixas que o mal te encha,

que te comande, e não queres a vida.

Teu futuro é a necessidade de uma sarça,

de uma velocidade estonteante e pura,

de uma carente e bestial sensação,

como se toda a droga se centrasse em ti,

e o veneno que destilas não fosse doce, somente água.

És a força cruel da montanha de ódio que te urde,

e Deus, como sabes, aniquilou-se por ti,

para que tivesses a certeza de que a vertigem é.

És o Pã vestido de gravata,

uma inocente reapreciação do cômputo fiscal,

a contratação do viaduto entre a vida e a morte,

a premissa da destruição ignóbil da mulher linda,

a laranja que é a terra na linguagem dos poetas,

mas tudo isso para a morte, não para a vida.

Não sabes que a vida não é,

não se pode cantar louvores quentes,

só o frio nos liberta,

só a morte nos dá sentido de ilusão.

Sabes mas a tua escolha é o sorriso...

A vida é para ti a crueza da pedra entre a mancha de

sangue.



Darkside

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

CREDERE DEI


Creio num só Deus

Criador não do céu ou da terra,

de todas as coisas vivas,

visíveis e invisíveis,

mas, num DEUS

criador

da dor

da morte

e

da descrença

crivado de angústia

pregado por homens como ele

consubstancial

ao pai touro APÍS

e à mãe HERA com olhos de vaca.

Criado não criador

das necessidades

humanas

vernáculas

baixas

vis

fazendo

negócios

por entre velas

e sacrifícios

a santos

disfarçados

de deuses

do lar

entregues

pelos senhores

do mundo

aos tristes

escravos

para secreta adoração

das suas vidas

ilustres

vendidas

nas capas das melhores revistas.

Creio

na santa madre igreja

universal

dos homens

benzida

com ouro

e diamante

toda revestida

dos símbolos

da morte

confundidos com os da vida,

assim entregue para a salvação

de todos os que

perdidos

no seu mar interior

de dúvida

de descrença

de desejo

de paixões

as centrem

ali dentro

da cruz

como se fosse

um sol

a troco da desculpa

por ter uma culpa

que foi inventada

numa tarde

em que a revolta

escrava se fez mais dura

e onde foi necessário

refrear não só

o ódio do escravo como

o ódio do senhor

ao escravo

numa moral

toda rodeada

de mulheres virgens

e sensuais

que se entregam a

fornicações

divinas

mas só com o divino.

Creio

portanto em tudo

para não

acreditar

rigorosamente

senão

no

espírito

que não é santo

mas

apenas

e

carne como carne

de

mulher

que nos dá gozo

antes do estertor

que antecipa

o orgasmo

da morte

e virá

para ressuscitar

não os vivos e os mortos

mas

apenas e só

o eterno fogo

do início

Assim seja.




Darkside

A porta para o interior


Evitando uma relação distinta com o espaço

Criando a ubiquidade

Talvez resolutamente absorto ou perdido no devaneio

Talvez esquecido

Quem sabe perdido por entre as tramas de uma vida qualquer

Objecto de ti mesmo sem sujeito nem pergunta

Estando simplesmente ao sol

Calmo

Projectando mais que uma sombra mais

Esperando que a porta se abra

A porta que se abra para que se entre e

Sentado

Se possa perguntar o que vem

O que vem depois de ter vindo o que se foi

E o que se é

O que vem

Depois de se estar sem se estar

Após a manhã fria do descontentamento

Dos lugares vazios cheios de caras e corpos

Das alianças sem qualquer sentido

O que vem

Para lá do que pode vir que se conhece

Por ter acontecido na nossa pele

Abre-se a porta

A cadeira espera

Espera que se entenda a sua singularidade

Está ali

Por não estar mais nada

Do que a sua presença

Esquadril

E a fome de perguntar acontece

A sede de ver permanece e a porta interior

Que se abre à espera do que vem

Não se pode fechar

Não se pode fechar

A cadeira espera

E o interior

Fundo

Não se conhece



Darkside

sábado, 22 de dezembro de 2007

Quem?


Quem se passeia nas tardes da preguiça, distraído enquanto o popular trabalha o suor do nosso quotidiano?

Quem finge não ver e não se envolve a não ser com os sonhos de ter e ter e ter sem nunca se satisfazer e vai usufruindo, fingindo que está sem estar fingindo que faz sem realmente fazer absolutamente nada?

Quem se afasta de tudo até do fruto do seu sangue e exige, do estado, que lhe finja o sucesso fácil do trabalho por fazer?

Quem se entrega à moda, ao jantar happy e à selva do domingo no corredor marmoreado do centro, tão comercial, como frio e vazio, apenas cheio da imago que vende e revende a mão cheia da felicidade padrão?

Quem nos aponta o dedo por sermos só sem mais, nós, e não quer que se denuncie que nas margens do pântano se está a viver à espera da pequena esmola tão celestial e confortante?

Quem manda para as costas no dia diário da perca, sem ver nada a não ser o esférico trôpego a saltar na relva em busca o orgástico golo no fundo do ânus adversário?

Quem se entrega à fúria do círio na igreja comum e orando vai cuspindo na cara alheia o seu orgulho distraído de bondade superior?

Quem se esconde no trabalho, no sexo ou na droga, qualquer, para se matar de tanto ser para exactamente não ser o que pode e devia ser?

Quem se afunda na leitura, na letra, na imagem, na arte, no ódio ou na visão, para não remendar a vida e não falar de amor apenas fingir uma dor de narciso perdido na infância da sua preguiça?

Quem pactua com o voraz devorador em troco da impunidade?

Quem se demite de tudo até de pensar?

E quem, tendo consciência da urgência da acção, da luta, da necessidade de se dar, sem medo, para que os monstros não destruam nem minem os que se demitiram de tudo, não o fazem invocando a sua necessidade de ser equidistante e olímpico?

E quem, tendo conhecimento da miséria provocada e da ignomínia desejada, da oligarquia de bronze e da premissa de exploração não se quer entregar e antes denuncia quem luta e acusa quem se dá ali na ponta para a morte sabida?

Quem denuncia de frente o acordo de fundo, conivente entre senhor e escravo ambos no banquete do que se esforça por fazer vingar a vida?

Quem são os traidores?

Quem são os que lutam, hoje de frente, pela liberdade inominada, fora do formato fácil do poderoso cão dos infernos que nos governa?

Quem são os lutadores?

Quem devemos matar?

Quem devemos deixar apodrecer?

Quem devemos trucidar na luta?

Quem devemos apoiar para que se instale o caos?

Quem deseja de frente a morte para que haja vida?

Que venha já o fim para que se possa começar a limpar...

Só a crueldade nos pode libertar do medo ...

Porque o medo é a arma do opressor e quem nos trai não é e ele, é o que sofre e não se revolta...

O que não aprendeu que a luta nos enobrece

O que não entendeu que não há vencedor há partida

Todo o que, quando viu que podia fazer algo, achou que melhor era não fazer

Todo o que julgou que não tinha jeito, que não valia a pena

O que hesitou

O que se escondeu

O que preferiu não ir

O que não quis morrer...



Darkside

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Rios de sangue


Quando mergulhares para o negro fundo

está seguro das tuas dores e convicções

porque ao ressuscitares a vida, vindo da penumbra

podes perder-te em altivas divagações de trevas

estás a mergulhar e uma voz puxa-te cada vez mais longe

nadas, não respiras mas reparas que te crescem guelras

habituas-te a não respirar ar mas a viver no fundo

só, frio, distante, distraído com as cores que inventas, e

perguntas se existe uma lua e um sol lá fora

se algum dia alguém existiu e se ainda tens passado

um grande desejo invade tudo, apaga até as estrelas

e só fica o profundo negro frio vazio da nossa imensa alma

rios de sangue invadem o espaço e impelem-te para a frente

vais à superfície e gelas tudo até a ti para ficares a arder

em fogo negro lento, macio, glorioso, afectuoso,

a morte habita-te e tornas-te num longo arbusto

imóvel, ardente, sereno, distante, ausente e enraizado

na história do tempo que está fora do tempo

em frente ao infinito transversal a qualquer dor

Quando estiveres a morrer, diariamente

lembra a vida sem qualquer enlace ou criação

a dor é uma montanha distante

e o cerro da porta que está por abrir é um mistério

ergues-te então do fundo e

rios de sangue brotam da tua mente e invadem a realidade

o real escapa por entre a imaginação e o terror

vais nadando por entre o sangue e por vezes

bebes um pouco

num hábito que te vai ficando das horas passadas

como arbusto perdido, ardente

em frente ao destino gelado da tua sombra preferida

Por isso

quando mergulhares para o negro fundo

está seguro das tuas dores e convicções

porque ao ressuscitares a vida, vindo da penumbra,

podes perder-te em altivas divagações de trevas...

no desejo de já não te habitar vida


Darkside

Argumentação e lógica


És tão bonita

sempre vestida de tudo o que não existe

apenas cintada com o verniz da espuma do mar

No dia em que o caçador te tomar por entre os seus braços

a porta da partida será apenas entreaberta e

os teus seios serão lindamente esfaqueados

para dar de comer a milhares de famintos

És linda e o teu corpo floresce

apeteces beijar e trincar

fazer contigo amor é o que se torna possível

tenho então que te dormir na cama do ácido

e desflorar-te para que a tua lógica se mature

e dê filhos

mas tu estás longe e viajas no clia do nome

sussurrado

Mas ainda posso mudar a minha mente

esta noite ainda posso fazer isso

basta que não me beijes nem me excites

com palavras gestos ou toques

apenas que me deixes ser como sou

E se a armação da argumentação

não te der razão

não te importes afinal

eu gosto e quero dar-te apenas prazer

é para isso que sirvo

é para isso que a vida me paga

para te dar prazer

que importa a lógica fria do advento

e que Deus

como quer a teologia

esteja sempre presente

sabes do que mais me recordo é do teu sorriso

da tua frescura de olhar que se perde

e ao mesmo tempo não se perde

da forma como te vi enrolada na cama

de barriga para baixo

de pernas para cima

entregue a uma preguiça

não transcendental mas apenas e só

preguiça

Então vem o balanço da lógica

e a argumentação serve de baixo

para dar o tom

falas discorres

e a tua voz embala-me

sonho ter-te e possuir-te

numa enorme cama sem fim

ter filhos teus e morrer a teu lado

tudo num segundo

num minuto

num instante

que é a vida toda

mas afinal

a lógica fria impele de novo e diz não

Lógica e argumentação

o trote a mula o cabrão do cão

eis a verdade que de perna

no advir do novo dia

Porém um dia bela

um dia no mar

das estrelas por viver

farei o que me apetece

e serei feliz

mas apenas e só

petiz

e se um ácido de repente

te oferecer flores

sorri rapaz

não é a droga

não necessitas disso

é só a lógica e a argumentação

abaixo a cueca

liberdade ao corpo masculino

tenho dito


Darkside