sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Mistério


Contraste

sem definição de relevo

sem atributo exclusivo

sem permanente difusão

qualidade de angústia e tribulação

a matéria negra Isis antiga

deusa celeste celebrada pela eternidade

teu filho perdido espaçado pelos rios

pelos campos

pregado algures na fúria dos humanos

e tu serena

serena quanto pode ser quem o é

e apesar da estrutura do tributo divino

da efusão dos corpos pelos corpos

para o abraço maternal esquálido

numa acídia celeste

esgar de encolhimento

apesar da dor da perda

vais errando pelas eras

junto das evocações das multidões

mulher

tens de amar os teus homens

tens de os amar para que se salvem

não basta que os dês à luz

não basta que dos teus seios brote leite

não é suficiente que os tragas ao colo e os alimentes

não é muito que te deixes semear

e quem em pranto sofras as sevícias do humano

não chega o prenúncio do abandono e da escravidão

a matéria negra e esquálida

o filho entregue ao caos e ás fúrias

a sublimação do ser na revolta

a guerra infinita com o comando

mistério tens de ser ainda

porque sem mistério

não existe

tuas mãos ao peito

a dor contida

o olhar perdido

e a fecundidade de Deus

continente de luz

deusa

mistério

que a carne te seja entregue

e nela te desmaies

una

por todos nós

bendita entre os demónios

mistério de todos nós



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