sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A idade do gelo



Sentes na pele tudo

porque a pele é o teu simulacro.

Na verdade não sentes realmente

apenas esboças sentimentos.

Admites levemente que te toquem,

que a dureza do mármore

se transforma em ti,

e tu,

no frio mármore branco e leitoso

por onde másculos corpos se fixam.

A crueldade habita-te,

como quem se sente unificado,

a dor de viver,

a renuncia à melancolia,

a entrega à raiva surda.

Assassinato,

é o que te poderia fazer sentir,

assim, real,

de modo a que

alguma vez te pudesses assumir,

como quem tem carne,

carne de verdade, que é quente, macia, nervosa...

Matando és tu.

Afiando o gume estiloso da espada,

ou afagando ao de leve numa carícia

o cano negro da arma de repetição,

aquela que te faz o click na hora exacta,

em que sentes o poder,

essa droga macia que é

o sabor a sangue na boca,

o sabor a sangue na boca, doce e salgado,

quando tudo em suspenso fica,

como se o tempo parasse,

e o impacto, lento, milimétrico,

dos projécteis se tornasse na mais bela melodia,

o ritmo a que dançam os corpos baleados,

torcidos, esventrados, empastados de sangue,

as bocas e os olhares esgazeados e fixos,

os braços entregues sem jeito ao pó no ar.

Mas não,

a idade do gelo multidões como calotes,

entrechocam-se por entre o racional,

geométrico entrançado das ruas.

Na idade do gelo, selvagens habitam em palácios de vidro,

criam metrópoles de desejo,

onde as montras evidenciam a morte,

e os ecrãs salientam o vazio por entre os rostos.

A idade do gelo é a nossa,

nem crua, nem branca nem fria,

é uma idade loura e glacial

modelo de elite, corpo afirmado,

corpo divinizado,

modelo de série, internacional,

rebuscando-se por entre a vaidade,

por entre os salões da universal falta.

A idade do gelo

O tempo em que somos afinal

A imagem do nosso espelho dentro do espelho


Darkside

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