
Sentes na pele tudo
porque a pele é o teu simulacro.
Na verdade não sentes realmente
apenas esboças sentimentos.
Admites levemente que te toquem,
que a dureza do mármore
se transforma em ti,
e tu,
no frio mármore branco e leitoso
por onde másculos corpos se fixam.
A crueldade habita-te,
como quem se sente unificado,
a dor de viver,
a renuncia à melancolia,
a entrega à raiva surda.
Assassinato,
é o que te poderia fazer sentir,
assim, real,
de modo a que
alguma vez te pudesses assumir,
como quem tem carne,
carne de verdade, que é quente, macia, nervosa...
Matando és tu.
Afiando o gume estiloso da espada,
ou afagando ao de leve numa carícia
o cano negro da arma de repetição,
aquela que te faz o click na hora exacta,
em que sentes o poder,
essa droga macia que é
o sabor a sangue na boca,
o sabor a sangue na boca, doce e salgado,
quando tudo em suspenso fica,
como se o tempo parasse,
e o impacto, lento, milimétrico,
dos projécteis se tornasse na mais bela melodia,
o ritmo a que dançam os corpos baleados,
torcidos, esventrados, empastados de sangue,
as bocas e os olhares esgazeados e fixos,
os braços entregues sem jeito ao pó no ar.
Mas não,
a idade do gelo multidões como calotes,
entrechocam-se por entre o racional,
geométrico entrançado das ruas.
Na idade do gelo, selvagens habitam em palácios de vidro,
criam metrópoles de desejo,
onde as montras evidenciam a morte,
e os ecrãs salientam o vazio por entre os rostos.
A idade do gelo é a nossa,
nem crua, nem branca nem fria,
é uma idade loura e glacial
modelo de elite, corpo afirmado,
corpo divinizado,
modelo de série, internacional,
rebuscando-se por entre a vaidade,
por entre os salões da universal falta.
A idade do gelo
O tempo em que somos afinal
Darkside

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