sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Primeira janela


O que entra por ti não é a luz nem o cinza disforme de árvores que querem morrer

O que entra por ti não é o abandono dos limites de uma qualquer grade que se quer desprender

O que entra por ti é a solicitude do que espera por acontecer há muito muito tempo entregue a uma morte destinada a ser o encontro da abertura ao tempo com a vida por viver entre novas paredes

A primeira janela é o desenlace do que podia ter sido junto a uma parede que foi em tempos habitada por vontades disfarçadas de névoa e desejos aflitos de algo que não manchasse parede alguma

porque

se lavaram muitas mãos na sombra húmida do que ia ficando por dizer do que o tempo ia tecendo por entre paredes a que a primeira janela tolhia o sonho porque a grade não se desfazia em si apenas se desfazia contra ti

porque

a água por fim secou e partiram das paredes os sonhos e as paredes ficaram apenas paredes para que possam às tardes de verão libertar o pó branco da caliça dos fantasmas das lágrimas que os filhos dos homens deixaram na cal

Porém perdeste o teu olhar no canto onde a janela e a parede se tocam por vergonha de olhar lá para fora e fazer face ao vazio

recorda no entanto tu que olhas que o vazio ainda não é o nada


Darkside


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