
O que entra por ti não é a luz nem o cinza disforme de árvores que querem morrer
O que entra por ti não é o abandono dos limites de uma qualquer grade que se quer desprender
O que entra por ti é a solicitude do que espera por acontecer há muito muito tempo entregue a uma morte destinada a ser o encontro da abertura ao tempo com a vida por viver entre novas paredes
A primeira janela é o desenlace do que podia ter sido junto a uma parede que foi em tempos habitada por vontades disfarçadas de névoa e desejos aflitos de algo que não manchasse parede alguma
porque
se lavaram muitas mãos na sombra húmida do que ia ficando por dizer do que o tempo ia tecendo por entre paredes a que a primeira janela tolhia o sonho porque a grade não se desfazia em si apenas se desfazia contra ti
porque
a água por fim secou e partiram das paredes os sonhos e as paredes ficaram apenas paredes para que possam às tardes de verão libertar o pó branco da caliça dos fantasmas das lágrimas que os filhos dos homens deixaram na cal
Porém perdeste o teu olhar no canto onde a janela e a parede se tocam por vergonha de olhar lá para fora e fazer face ao vazio
recorda no entanto tu que olhas que o vazio ainda não é o nada

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