sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Rios de sangue


Quando mergulhares para o negro fundo

está seguro das tuas dores e convicções

porque ao ressuscitares a vida, vindo da penumbra

podes perder-te em altivas divagações de trevas

estás a mergulhar e uma voz puxa-te cada vez mais longe

nadas, não respiras mas reparas que te crescem guelras

habituas-te a não respirar ar mas a viver no fundo

só, frio, distante, distraído com as cores que inventas, e

perguntas se existe uma lua e um sol lá fora

se algum dia alguém existiu e se ainda tens passado

um grande desejo invade tudo, apaga até as estrelas

e só fica o profundo negro frio vazio da nossa imensa alma

rios de sangue invadem o espaço e impelem-te para a frente

vais à superfície e gelas tudo até a ti para ficares a arder

em fogo negro lento, macio, glorioso, afectuoso,

a morte habita-te e tornas-te num longo arbusto

imóvel, ardente, sereno, distante, ausente e enraizado

na história do tempo que está fora do tempo

em frente ao infinito transversal a qualquer dor

Quando estiveres a morrer, diariamente

lembra a vida sem qualquer enlace ou criação

a dor é uma montanha distante

e o cerro da porta que está por abrir é um mistério

ergues-te então do fundo e

rios de sangue brotam da tua mente e invadem a realidade

o real escapa por entre a imaginação e o terror

vais nadando por entre o sangue e por vezes

bebes um pouco

num hábito que te vai ficando das horas passadas

como arbusto perdido, ardente

em frente ao destino gelado da tua sombra preferida

Por isso

quando mergulhares para o negro fundo

está seguro das tuas dores e convicções

porque ao ressuscitares a vida, vindo da penumbra,

podes perder-te em altivas divagações de trevas...

no desejo de já não te habitar vida


Darkside

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