terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Segunda janela

Os trapos parcos da intimidade entregues ao chão castanho por entre as lajes gastas abrem ao intimo a evocação do presente


Não é o pó que suja é a esquina que fere


Na segunda janela mergulhas no choro dos tempos e na saudade das marés em que vivias os abraços da gente quente que te tinha por certo nas manhãs e nas tardes mesmo nas noites ao lume por entre um fumo difuso que dourava as lágrimas e ajudava o ar a passar sem fazer frieiras entre a memória dos vivos


A segunda janela não é uma proximidade à sombra ou à luz a segunda janela é o canto triste onde por vezes te escondes das dores sem que no entanto esqueças que brilha o sol apesar das teias, do pó e da aparente rigidez da empena


Apenas o pedaço da parede caída evoca a morte e ela será a tua o que deixas no chão sem cuidar


Mas mais forte que qualquer empena é o sentimento que constrói as casas como imagens de que se sonha e aí mora a eternidade


Arrastada no escuro permanece ainda aquela dor que se elevou até ao vidro poeirento e se prendeu no entrançado desigual e frágil da teia que o pensamento colou ao gesto de sentir o fim e se a morte apaga a memória ou se ela apenas nos tira o sentido que existe nas paredes no chão ou no objecto banal com que lavavas as tuas mãos não o desejas saber


A dor que subiu não descerá jamais a não ser quando aceites abrir a segunda janela e deixes entrar definitivamente o sem nome que habita o vazio que não sendo ainda o nada já o prefigura por ser nada


O nada, embora não o saibas, é o ser que é ao mesmo tempo e simultaneamente, o tudo


Pela segunda janela quando te choram os olhos e te tremem as mãos ao desejares voltar ao que sendo já teres sido sem nunca mais voltares ao canto escuro deixas que com a dor ultrapasse a teia


E o que serás em carne futura o filho que se perfila no escuro o que ainda tens nas entranhas a revoltar-se e a querer sair esse poderá então ser

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