quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A branca parede da dor ao fundo


Mãe

Quando as tuas mãos fizeram o mundo

E as tuas mágoas fizeram a nossa alegria

Mãe

Desenhámos no branco profundo da parede velha

Com as tuas mãos esquecidas de mágoas

Todas as mágoas que em nós surgiam por estar em nós a dor

E a parede branca tinha rugas como rugas tinha a tua cara sofrida na alegria das dores de Mãe

A branca parede da dor ao fundo

Com pregos e figuras da nossa intimidade

Não me lembra nunca jamais e agora a dor

A ausência de ti ou a verdade do pregos nela pregados em ordem a um fim qualquer

O que me lembra Mãe

É a forma como sorrias ao nascer dos dias em que caiavas

E na cal descansavas as tuas dores

Brancas

Como são todas as dores

Por o branco ser todas as cores juntas

Como todas as mágoas o são

E porque foi tua aquela parede

Agora que vivo e tu não és mais

As rugas da cal são a tua memória e a minha glória

A branca parede da dor ao fundo

Do mais fundo da dor que já sei pintar


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