
Corpúsculo.
O invento da serenidade no embate da refrega.
Passear por entre corpos no meio da cidade,
como se não existissem fronteiras entre nós.
A terceira vaga do mar contra a pedra fria,
não desfaz o sentido da necessidade da urbe.
Toda a urbe tem necessidade de corpos,
como quem tem necessidade de água quando tem sede.
Mesmo que ao passear se nos afigure
que não merecem estar vivos,
apesar de tudo estão,
é por isso que é urgente a nossa revolta.
E quando te pedem o sacrifício,
isto é,
quando te pedem que derrames sangue
em nome de uma qualquer crença
pois, deves derramar sangue,
até o teu se outro não conseguires derramar.
Por isso, andar por aí,
com desejo de não ser
configurado é um crime.
Largar o sentido,
por entre a verdade,
como se a mentira não fosse
sendo apesar de tudo,
a verdade que se instala
por entre as todas as mãos que tocas.
É não só o destino,
como o refrear da vitalidade,
entre a máquina que consome
os corpos e as carnes
na multiplicidade da convenção
do partido, interno e inteiro.
Caminhar,
na cidade do nascer ao por
do ritmo musical
dos freios isolados
dos sentimentos
mesmo que tudo se pareça
com um nada ou com uma
ilusão enorme e imbecil.
Queimar o tempo,
essa coisa que não te diz nada,
porque o tempo,
que é?
É uma invenção
de algo que nunca existiu,
nem existe,
nem jamais existirá,
existe, sim, tu e eu
nós,
assim entregues,
um ao outro sem guardar nada,
a não ser longas facadas,
de morte, dadas,
na sala dos espelhos,
onde as estrelas
mesmo as mais brilhantes
buscam o seu reflexo,
em ti ser híbrido da nossa invenção.
Caminhando
sabes que o mal
o demónio interior
não é uma ilusão
habita dentro e fora de ti
viaja, está sempre presente
alimenta-se de ti
da tua substancia mais
vital
que não é o sangue
nem o sopro divino
nem sequer a alma
imaterial,
mas que do fazes
a toda a hora
a todo o momento.
Caminhar, caminhando
sem estar ou ser...
Ser apenas a sombra do que fica
ou o terço
sussurrado por entre dentes no calor da urbe.
Tudo o que poderás ser
não o serás nunca a não ser
que mates.
Não porque há razão.
A razão é só,
um leve desejo,
de electricidade,
por entre alguns neurónios,
distraídos da
actividade natural,
matar,
morrer,
ser comido ou comer.
A civilização explicasse
assim,
caminhando por entre a
urbe,
corpuscular.
Onde tens de te movimentar.
Onde tens de te movimentar apesar de teres de...
te movimentar...
Darkside
