quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Caminhando


Corpúsculo.

O invento da serenidade no embate da refrega.

Passear por entre corpos no meio da cidade,

como se não existissem fronteiras entre nós.

A terceira vaga do mar contra a pedra fria,

não desfaz o sentido da necessidade da urbe.

Toda a urbe tem necessidade de corpos,

como quem tem necessidade de água quando tem sede.

Mesmo que ao passear se nos afigure

que não merecem estar vivos,

apesar de tudo estão,

é por isso que é urgente a nossa revolta.

E quando te pedem o sacrifício,

isto é,

quando te pedem que derrames sangue

em nome de uma qualquer crença

pois, deves derramar sangue,

até o teu se outro não conseguires derramar.

Por isso, andar por aí,

com desejo de não ser

configurado é um crime.

Largar o sentido,

por entre a verdade,

como se a mentira não fosse

sendo apesar de tudo,

a verdade que se instala

por entre as todas as mãos que tocas.

É não só o destino,

como o refrear da vitalidade,

entre a máquina que consome

os corpos e as carnes

na multiplicidade da convenção

do partido, interno e inteiro.

Caminhar,

na cidade do nascer ao por

do ritmo musical

dos freios isolados

dos sentimentos

mesmo que tudo se pareça

com um nada ou com uma

ilusão enorme e imbecil.

Queimar o tempo,

essa coisa que não te diz nada,

porque o tempo,

que é?

É uma invenção

de algo que nunca existiu,

nem existe,

nem jamais existirá,

existe, sim, tu e eu

nós,

assim entregues,

um ao outro sem guardar nada,

a não ser longas facadas,

de morte, dadas,

na sala dos espelhos,

onde as estrelas

mesmo as mais brilhantes

buscam o seu reflexo,

em ti ser híbrido da nossa invenção.

Caminhando

sabes que o mal

o demónio interior

não é uma ilusão

habita dentro e fora de ti

viaja, está sempre presente

alimenta-se de ti

da tua substancia mais

vital

que não é o sangue

nem o sopro divino

nem sequer a alma

imaterial,

mas que do fazes

a toda a hora

a todo o momento.

Caminhar, caminhando

sem estar ou ser...

Ser apenas a sombra do que fica

ou o terço

sussurrado por entre dentes no calor da urbe.

Tudo o que poderás ser

não o serás nunca a não ser

que mates.

Não porque há razão.

A razão é só,

um leve desejo,

de electricidade,

por entre alguns neurónios,

distraídos da

actividade natural,

matar,

morrer,

ser comido ou comer.

A civilização explicasse

assim,

caminhando por entre a

urbe,

corpuscular.

Onde tens de te movimentar.

Onde tens de te movimentar apesar de teres de...

te movimentar...


Darkside