domingo, 9 de dezembro de 2007

O olhar e a vida


Não descanses assim teus olhos nos meus

não sabes que a ternura não se esconde...

Porque me olhas de longe com vastidão,

deixando que o teu olhar teça em mim,

perguntas e receios, desejos de futuro.

Olha-me como mulher que és, assim de frente,

deixa que os olhos construam com os meus,

palavras e gestos,

deixa que se ligue o que há que ligar.

Não descanses assim os teus olhos nos meus,

não sabes que as carícias não se esquecem...

não sabes que a ternura no fim sempre vence.

Porque me olhas vazia fingindo algo,

urgente é não querer o infinito,

para que se possa realçar a verdade,

na realidade que se esvai para a saudade.

Lembras a vida assim, de cima de um monte,

algo que fabricaste como próprio

mas que é ilusão,

a tua ilusão,

aquela a que te agarras com unhas, dentes, alma.

Não descanses assim teus olhos nos meus,

não sabes que os olhos não podem descansar,

a visão não é unívoca nem é tua,

apenas um pedaço de tempo a esvanecer-se

apenas um traço de vida a fugir em frente.

Entras por entre o medo,

pela ruidosa força dos nervos,

pedindo aos monstros familiares, vizinhos,

próximos da tua consciência

que não te prendam, que não te larguem.

Não descanses assim teus olhos nos meus,

não sei responder-te...

não sei tocar-te, não te conheço

não, não inventes a força e o laço

não construas por aí castelos e casas

lares, idades, confidencias, segredos.

Não sou o que imaginas, nem o que vais desejar

não serei a tua viagem às estrelas,

não te mostrarei Deus como um menino,

brincalhão, divertido e solene.

Não descanses assim teus olhos nos meus.

Na idade perdida, aquela onde viajo e me construo,

não existem encontros, laços,

apenas resistem resíduos das minhas imagens.

Não descanses assim teus olhos nos meus,

porque ao descansar a tua ternura invade-me,

e assalta-me a vertigem de te ter,

proibidamente ser teu,

com o dolo directo necessário agravado,

e toda a tipologia do crime,

severamente implicada no código

ethos da vida, realidade, arquétipo.

Não descanses assim teus olhos nos meus,

não me darás paz,

nem solicitude,

apenas a vertigem, a voragem,

não descanses...

anda... vem...

acende-me, toca-me, espero-te,

anseio-te como quem anseia o devir

violento da tempestade regeneradora

vem... não descanses por aí por jardins solitários.


Darkside