
O sacrifício perene do ser,
na tarde crua do amanhã estival,
é o requiem perdido,
a face esquiva da alegria.
Não se cantem ultimatos à vida
porque a dança da morte começou,
assuma-se antes a plenitude,
já que a raiva nos impele.
Ruidosamente se avance
como quem se transforma todo,
e se celebre à lua antiga o cântico,
a prestação que lhe é devida,
a participação com o animal interior.
Libertem-se as prisões da moralidade útil,
todos os valores sucumbam a um só,
prestemos, à deusa guerra que nos vai elaborando,
numa renda bilrada de ossos, sangue e carne,
por entre as coxas escancaradas da mulher eterna,
no altar do leite freático do macho,
no arroubo da droga eterna da palavra,
o culto que lhe é devido.
Que a grande deusa possa ser eleita,
e que o ritmo da loucura nos liberte para a vida,
que os Cristos da perversão se sacrifiquem todos,
que os Deuses eternos possam por fim morrer.
Nus, despidos das nossas humanidades,
entregues à bestialidade solene e ancestral,
mergulhemos no demónio vestuto e doce,
na animalidade pura,
ao som de mil gritos horrendos, bestiais e puros,
enlacemos os corpos na fúria da carne,
celebremos orgias recriando o caldo cósmico.
Dotados de máquinas, de frios aços e eléctricos impulsos,
bombardeemos o universo todo,
procurando a louca fusão,
solicitando o cosmos oscilatório,
a recriação divina do quantum,
a duvida do átomo e o misticismo fagócito.
Contemplando o sexo da divindade,
mergulhemos a vida na morte,
exijamos todos a profissão de carniceiro,
o lugar de ministro, de general, de almirante,
organizemos milimetricamente a destruição de todo o SER.
Que haja no Olimpo do gabinete frio do nababo,
por entre as notas de banco da felicidade própria,
na fímbria límbica da sua sofreguidão abstracta,
o quadro da contabilidade universal.
Na coluna do haver o seu ego sublime dourado,
revestido pelo card digital,
ca coluna do deve tudo o que existe.
Só assim se cumprirá,
só assim se consumará,
só assim o redentor e o bom velho Deus celeste,
aquele que se vingou no Egipto,
aquele que É,
poderá pagar o eterno crédito de que é devedor,
porque a bestialidade não é isenta de imposto.
Por fim, quando já só restar o nababo eterno,
e o master card se creditar autotélicamente,
quando ubiquamente o amor for sangue,
então a nossa animalidade racional poderá,
satisfeita, gorda, apagar o facho.
Determine-se e mande-se publicar,
para que o amor seja por fim sangue,
seja como o sangue.
Darkside
