quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Da beleza da vida



O sacrifício perene do ser,

na tarde crua do amanhã estival,

é o requiem perdido,

a face esquiva da alegria.

Não se cantem ultimatos à vida

porque a dança da morte começou,

assuma-se antes a plenitude,

já que a raiva nos impele.

Ruidosamente se avance

como quem se transforma todo,

e se celebre à lua antiga o cântico,

a prestação que lhe é devida,

a participação com o animal interior.

Libertem-se as prisões da moralidade útil,

todos os valores sucumbam a um só,

prestemos, à deusa guerra que nos vai elaborando,

numa renda bilrada de ossos, sangue e carne,

por entre as coxas escancaradas da mulher eterna,

no altar do leite freático do macho,

no arroubo da droga eterna da palavra,

o culto que lhe é devido.

Que a grande deusa possa ser eleita,

e que o ritmo da loucura nos liberte para a vida,

que os Cristos da perversão se sacrifiquem todos,

que os Deuses eternos possam por fim morrer.

Nus, despidos das nossas humanidades,

entregues à bestialidade solene e ancestral,

mergulhemos no demónio vestuto e doce,

na animalidade pura,

ao som de mil gritos horrendos, bestiais e puros,

enlacemos os corpos na fúria da carne,

celebremos orgias recriando o caldo cósmico.

Dotados de máquinas, de frios aços e eléctricos impulsos,

bombardeemos o universo todo,

procurando a louca fusão,

solicitando o cosmos oscilatório,

a recriação divina do quantum,

a duvida do átomo e o misticismo fagócito.

Contemplando o sexo da divindade,

mergulhemos a vida na morte,

exijamos todos a profissão de carniceiro,

o lugar de ministro, de general, de almirante,

organizemos milimetricamente a destruição de todo o SER.

Que haja no Olimpo do gabinete frio do nababo,

por entre as notas de banco da felicidade própria,

na fímbria límbica da sua sofreguidão abstracta,

o quadro da contabilidade universal.

Na coluna do haver o seu ego sublime dourado,

revestido pelo card digital,

ca coluna do deve tudo o que existe.

Só assim se cumprirá,

só assim se consumará,

só assim o redentor e o bom velho Deus celeste,

aquele que se vingou no Egipto,

aquele que É,

poderá pagar o eterno crédito de que é devedor,

porque a bestialidade não é isenta de imposto.

Por fim, quando já só restar o nababo eterno,

e o master card se creditar autotélicamente,

quando ubiquamente o amor for sangue,

então a nossa animalidade racional poderá,

satisfeita, gorda, apagar o facho.

Determine-se e mande-se publicar,

para que o amor seja por fim sangue,

seja como o sangue.



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