segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Esse raivoso cão



Esse raivoso cão que alimentas secretamente escondido no compartimento oculto da mansão que exibes publicamente como teu domicilio a pão de carne humana disfarçado de pão-de-ló e que te arrasta por entre as tortuosas vielas da infâmia dos corredores do luxo onde os teus senhores se passeiam distraídos do mundo cresceu demasiado e já não consegues mantê-lo dentro da oculta sala ficando de fora a cauda pavorosa e nua ao mesmo tempo que empesta o ar com o cheiro fétido das suas fezes e da sua pele cheia das vitimas inocentes da máquina fenomenal que és tu e toda a tua prole que não pode esconder que começou para teu desespero a transfiguração satânica há muito prometida e determinada pelos reais decretos da causalidade universal em que a tua carne especialmente a tua lívida face de senhor sério honesto e bem vestido de posição e boa colocação social junto do trono de deus começou a parecer-se analógica e substancialmente com a face do raivoso cão que secretamente alimentas na exacta e pontual medida em que o mesmo vai perdendo a sua face de cão e ganha descaradamente ele a tua cara de cidadão recto honesto e pontual ao serviço da nação e à amante cadela não saiba ela que lhe guardas tal nome como guardas no peito tal cão raivoso

E contínuas sentado instalado bem em cima da massa informe mas ordenada de papel quilométrico de sentenças de artigos jurisprudência votos de vencido e rescritos imperiais que te ordenam a fazer exactamente o que a tua vontade de magistrado livre e independente sempre te ordenou no exacto sentido dos donos que te guardam e a quem lambes copiosamente as afáveis mãos que te afagam o pançudo pelo ou te batem no costado batido o pó dos corredores das casas onde fazes justiça pela justiça medida pelos actos e palavras vazias com que por cima de uma mesa humana expendias desgraças à massa anónima que te passava pelas fuças bestiais descansando a tua animalidade canícula como se fosses qualquer coisa parecida por analogia remota e espectral com um ente levemente antropomórfico não entendendo que a tua anunciada morte e a carcassa imunda que vais deixar à posteridade servirá para alimentar a tua prole e os demónios simples e sem dentes que ainda cá vais deixar para que o ciclo canícula onde conseguiste embarcar a custo se reproduza até que o sonho feliz em que o universo é canicular acabe por rebentar no arrastado tiro do dono no cão no momento do seu abate por a raiva já não servir como paliativo junto dos rebanhos de mortos vivos que afinal e devagar o teu dono sem tu saberes a ti e á tua prole te faz guardar


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