
Quando mergulhares para o negro fundo
está seguro das tuas dores e convicções
porque ao ressuscitares a vida, vindo da penumbra
podes perder-te em altivas divagações de trevas
estás a mergulhar e uma voz puxa-te cada vez mais longe
nadas, não respiras mas reparas que te crescem guelras
habituas-te a não respirar ar mas a viver no fundo
só, frio, distante, distraído com as cores que inventas, e
perguntas se existe uma lua e um sol lá fora
se algum dia alguém existiu e se ainda tens passado
um grande desejo invade tudo, apaga até as estrelas
e só fica o profundo negro frio vazio da nossa imensa alma
rios de sangue invadem o espaço e impelem-te para a frente
vais à superfície e gelas tudo até a ti para ficares a arder
em fogo negro lento, macio, glorioso, afectuoso,
a morte habita-te e tornas-te num longo arbusto
imóvel, ardente, sereno, distante, ausente e enraizado
na história do tempo que está fora do tempo
em frente ao infinito transversal a qualquer dor
Quando estiveres a morrer, diariamente
lembra a vida sem qualquer enlace ou criação
a dor é uma montanha distante
e o cerro da porta que está por abrir é um mistério
ergues-te então do fundo e
rios de sangue brotam da tua mente e invadem a realidade
o real escapa por entre a imaginação e o terror
vais nadando por entre o sangue e por vezes
bebes um pouco
num hábito que te vai ficando das horas passadas
como arbusto perdido, ardente
em frente ao destino gelado da tua sombra preferida
Por isso
quando mergulhares para o negro fundo
está seguro das tuas dores e convicções
porque ao ressuscitares a vida, vindo da penumbra,
podes perder-te em altivas divagações de trevas...
no desejo de já não te habitar vida
Darkside

