
Quem se passeia nas tardes da preguiça, distraído enquanto o popular trabalha o suor do nosso quotidiano?
Quem finge não ver e não se envolve a não ser com os sonhos de ter e ter e ter sem nunca se satisfazer e vai usufruindo, fingindo que está sem estar fingindo que faz sem realmente fazer absolutamente nada?
Quem se afasta de tudo até do fruto do seu sangue e exige, do estado, que lhe finja o sucesso fácil do trabalho por fazer?
Quem se entrega à moda, ao jantar happy e à selva do domingo no corredor marmoreado do centro, tão comercial, como frio e vazio, apenas cheio da imago que vende e revende a mão cheia da felicidade padrão?
Quem nos aponta o dedo por sermos só sem mais, nós, e não quer que se denuncie que nas margens do pântano se está a viver à espera da pequena esmola tão celestial e confortante?
Quem manda para as costas no dia diário da perca, sem ver nada a não ser o esférico trôpego a saltar na relva em busca o orgástico golo no fundo do ânus adversário?
Quem se entrega à fúria do círio na igreja comum e orando vai cuspindo na cara alheia o seu orgulho distraído de bondade superior?
Quem se esconde no trabalho, no sexo ou na droga, qualquer, para se matar de tanto ser para exactamente não ser o que pode e devia ser?
Quem se afunda na leitura, na letra, na imagem, na arte, no ódio ou na visão, para não remendar a vida e não falar de amor apenas fingir uma dor de narciso perdido na infância da sua preguiça?
Quem pactua com o voraz devorador em troco da impunidade?
Quem se demite de tudo até de pensar?
E quem, tendo consciência da urgência da acção, da luta, da necessidade de se dar, sem medo, para que os monstros não destruam nem minem os que se demitiram de tudo, não o fazem invocando a sua necessidade de ser equidistante e olímpico?
E quem, tendo conhecimento da miséria provocada e da ignomínia desejada, da oligarquia de bronze e da premissa de exploração não se quer entregar e antes denuncia quem luta e acusa quem se dá ali na ponta para a morte sabida?
Quem denuncia de frente o acordo de fundo, conivente entre senhor e escravo ambos no banquete do que se esforça por fazer vingar a vida?
Quem são os traidores?
Quem são os que lutam, hoje de frente, pela liberdade inominada, fora do formato fácil do poderoso cão dos infernos que nos governa?
Quem são os lutadores?
Quem devemos matar?
Quem devemos deixar apodrecer?
Quem devemos trucidar na luta?
Quem devemos apoiar para que se instale o caos?
Quem deseja de frente a morte para que haja vida?
Que venha já o fim para que se possa começar a limpar...
Só a crueldade nos pode libertar do medo ...
Porque o medo é a arma do opressor e quem nos trai não é e ele, é o que sofre e não se revolta...
O que não aprendeu que a luta nos enobrece
O que não entendeu que não há vencedor há partida
Todo o que, quando viu que podia fazer algo, achou que melhor era não fazer
Todo o que julgou que não tinha jeito, que não valia a pena
O que hesitou
O que se escondeu
O que preferiu não ir
Darkside
