terça-feira, 25 de dezembro de 2007

CREDERE DEI


Creio num só Deus

Criador não do céu ou da terra,

de todas as coisas vivas,

visíveis e invisíveis,

mas, num DEUS

criador

da dor

da morte

e

da descrença

crivado de angústia

pregado por homens como ele

consubstancial

ao pai touro APÍS

e à mãe HERA com olhos de vaca.

Criado não criador

das necessidades

humanas

vernáculas

baixas

vis

fazendo

negócios

por entre velas

e sacrifícios

a santos

disfarçados

de deuses

do lar

entregues

pelos senhores

do mundo

aos tristes

escravos

para secreta adoração

das suas vidas

ilustres

vendidas

nas capas das melhores revistas.

Creio

na santa madre igreja

universal

dos homens

benzida

com ouro

e diamante

toda revestida

dos símbolos

da morte

confundidos com os da vida,

assim entregue para a salvação

de todos os que

perdidos

no seu mar interior

de dúvida

de descrença

de desejo

de paixões

as centrem

ali dentro

da cruz

como se fosse

um sol

a troco da desculpa

por ter uma culpa

que foi inventada

numa tarde

em que a revolta

escrava se fez mais dura

e onde foi necessário

refrear não só

o ódio do escravo como

o ódio do senhor

ao escravo

numa moral

toda rodeada

de mulheres virgens

e sensuais

que se entregam a

fornicações

divinas

mas só com o divino.

Creio

portanto em tudo

para não

acreditar

rigorosamente

senão

no

espírito

que não é santo

mas

apenas

e

carne como carne

de

mulher

que nos dá gozo

antes do estertor

que antecipa

o orgasmo

da morte

e virá

para ressuscitar

não os vivos e os mortos

mas

apenas e só

o eterno fogo

do início

Assim seja.




Darkside

A porta para o interior


Evitando uma relação distinta com o espaço

Criando a ubiquidade

Talvez resolutamente absorto ou perdido no devaneio

Talvez esquecido

Quem sabe perdido por entre as tramas de uma vida qualquer

Objecto de ti mesmo sem sujeito nem pergunta

Estando simplesmente ao sol

Calmo

Projectando mais que uma sombra mais

Esperando que a porta se abra

A porta que se abra para que se entre e

Sentado

Se possa perguntar o que vem

O que vem depois de ter vindo o que se foi

E o que se é

O que vem

Depois de se estar sem se estar

Após a manhã fria do descontentamento

Dos lugares vazios cheios de caras e corpos

Das alianças sem qualquer sentido

O que vem

Para lá do que pode vir que se conhece

Por ter acontecido na nossa pele

Abre-se a porta

A cadeira espera

Espera que se entenda a sua singularidade

Está ali

Por não estar mais nada

Do que a sua presença

Esquadril

E a fome de perguntar acontece

A sede de ver permanece e a porta interior

Que se abre à espera do que vem

Não se pode fechar

Não se pode fechar

A cadeira espera

E o interior

Fundo

Não se conhece



Darkside